Um encontro com Jonathan Safran Foer - AHR

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O oitavo dia

Um encontro com Jonathan Safran

Comer animais
O livro Comer Animais, do jovem escritor Jonathan Safran Foer, faz uma reflexão sobre nossos hábitos alimentares. Na receita, ácidas denúncias contra a indústria de carne dos Estados Unidos, saborosas histórias de família e o impacto da pecuária no aquecimento global

"Comer não é racional. Nenhuma conversa de bom senso pode mudar o modo como encaramos uma maçã ou um bife. Nós, humanos, somos simultaneamente animais racionais e irracionais. E agimos de acordo com isso, matando e devorando nossas presas, mas também criando iguarias e histórias que justificam nossos hábitos. Por isso o livro Comer Animais de Jonathan Safran Foer (editora Rocco) é mais interessante do que um libelo típico a favor do vegetarianismo. Ele é também uma reflexão a respeito de crueldade e prazer, expõe conflitos, toca em pontos tragicômicos para responder às seguintes questões: Por que comemos animais? E como fazemos isso hoje, em escala industrial?

Não é um panfleto chato de militante e, sim, obra de um jovem escritor de destaque na nova literatura dos Estados Unidos. Seu premiado romance de estréia, "Tudo se Ilumina", de 2002, foi adaptado para o cinema (o protagonista é Elijah Wood, o Frodo de O Senhor dos Anéis) e, em 2005, o autor criou a história de um menino que perdeu o pai nos atentados de 11 de setembro em Extremamente Alto & Incrivelmente Perto. Em Comer Animais Safran Foer abandona a ficção, mas sabe que não é possível dar conta da realidade de modo linear- ainda mais quando ela envolve tanto sangue. Ele compôs uma colagem que reúne memórias domésticas e o resultado de três anos de pesquisa em fazendas e indústrias de carne e depoimentos surpreendentes de ativistas e pecuaristas. A motivação da obra foi a chegada do primeiro filho -- Foer queria saber como alimentar o seu garoto e que histórias de comida contar a ele.

DESTINO E DOMINAÇÃO
Não é fácil digerir as informações do livro. Muita coisa já sabemos, mas pensar no assunto é um soco no estômago. Por exemplo: esqueça aquelas galinhas dos sítios da nossa infância. As atuais foram modificadas pela engenharia genética. As poedeiras produzem ovos e os frangos de corte produzem carne. As galinhas de outrora viviam entre 15 e 20 anos; o frango moderno é abatido em torno de seis semanas - e para isso sua taxa diária de crescimento aumentou cerca de 400%. Os filhotes machos da poedeira não têm função, pois não botam ovos: a maioria dos filhotes é destruída - os pintinhos são sugados por uma máquina com uma série de canos até uma placa eletrificada.

Foer intercala descrições como essa ou a de vacas esfoladas e esquartejadas vivas com relatos de funcionários da indústria da carne que tornam-se sádicos, adoecem ao ver a escala da matança ou são demitidos ao denunciar abusos. O que torna o livro palatável são as histórias de família, em especial a de sua avó judia, que sobreviveu à guerra comendo restos de lata de lixo e nunca deixou de aproveitar sobras e estocar farinha no porão.

Entre os depoimentos surpreendentes está o do pecuarista Bill, um homem caloroso que se casou com uma vegetariana, e que mantém uma fazenda de criação familiar - hoje, uma raridade. A indústria dominou o mercado e menos de 1% de animais mortos para obtenção de carne nos EUA provém dessas fazendas em que os animais vivem livres no pasto até a hora de morrer. Diz o fazendeiro Bill: "O momento do abate é quando você compreende o destino e a dominação. É o momento mais perturbador para mim, aquele em que os animais estão enfileirados no abatedouro. É o casamento da vida e da morte. É quando você se dá conta. "Deus, será que eu quero mesmo exercer dominação e transformar essa maravilhosa criatura viva em produto, em comida"?.

Além de depoimentos de cunho emocional e de pesquisas que atestam que variados tipos de animais ( e não só os domésticos) têm capacidade de sentir dor, alegria, empatia e de criar vínculos, a obra informa que a contribuição da pecuária para o aquecimento global é 40% superior a todos os meios de transporte do mundo somados e a causa número 1 das mudanças climáticas. A previsão do autor é que, em 2050, os rebanhos comerão tanta comida quanto 4 bilhões de pessoas. Foer, que já foi carnívoro e hoje é vegetariano, declara que isso é insustentável e prega a diminuição imediata do consumo da carne. Aos que não se importam com ética ou com a dor dos bichos, resta o apelo da economia."

Por: Déborah de Paula Souza
Fonte: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/estante/comer-animais-jonathan-safran-foer-estante-633304.shtml

 
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