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Teatro

Sobre como nascem os seres fantásticos

Lígia Helena e Sueli Almeida



“A função da arte é tornar a realidade impossível”
Heiner Müller



Tarde fria de domingo, um certo desejo de pouco ou nenhum movimento, uma solidão e a angústia azeda da certeza de uma nova semana triste e apática por vir. Resolveu caminhar, andar por algumas ruas desconhecidas daquela cidade que não era sua, mas que há alguns anos já habitava. Cruzou esquinas escuras e quadras longas enquanto fumava um cigarro. Parou algumas vezes, uma em um bar, para tomar uma cerveja, outra em uma banca para ler uma revista.
Mas aconteceu que em uma pequena rua, Rua das Rosas, percebeu algumas luzes acesas numa calçada e uma placa onde se anunciava a temporada de um espetáculo teatral. O nome da peça era daqueles longos e que pareciam querer lhe dizer muitas coisas. Viu no cartaz que começaria dali a trinta e poucos minutos, perguntou quanto era: “cinco contos”, respondeu uma mulher baixinha e de cabelos longos, escondida atrás de um buraco na parede que se fazia de bilheteria. Enfiou a mão nos bolsos caçando moedas perdidas, entregou o dinheiro e foi se sentar nos bancos dentro da pequena sala de espera.
“Que diabos estou fazendo aqui, nem conheço esta gente?”, se perguntava olhando aqueles que iam adentrando na salinha e se apertando, em pé porque bancos já não havia mais. Tentou reparar se de dentro do tal teatro havia alguma saída discreta: “Se isso for ruim vou embora”, pensava. “Quem diabos faz teatro num lugar destes?”.
Aos poucos uma voz delicada de mulher foi tomando conta do espaço, fez-se silêncio na salinha, era uma música conhecida que ela cantava, a mulher baixinha da bilheteria abriu a porta para que todos entrassem, as vozes da música foram se multiplicando, um sorriso escapuliu de seus lábios sem consentimento quando a música ganhou volume e os atores começaram a dançar pelo espaço e todos se sentaram em meio ao cenário, em meio a todo o espetáculo, era como se tudo fosse teatro. Então naquela noite, como não fazia há muito tempo, dançou, cantou, ouviu versos de amor, relatos de horror, pensamentos políticos, argumentos e idéias, e sentiu como se conhecesse todas aquelas pessoas há uma eternidade, e acreditou que era parte daquilo.

Desde aquele dia, ninguém mais viu aquela pessoa a cruzar esquinas escuras e quadras longas, não que a pessoa não tenha passado por esquinas escuras e quadras longas, é que ela apenas não era mais aquela pessoa.

Sueli Aparecida de Almeida
Formada em Fotografia pelo Senac-SP, possui foco de pesquisa em "Fotografia de Palco", tendo realizado trabalhos para vários grupos teatrais, englobando as modalidades: teatro infantil, adulto, de intervenção, de rua e musicais. Em julho de 2009 participou do Workshop oferecido pela Fotograma, ministrado  por Emídio Luigi.
Participou da Oficina "Fotografia de Palco", promovida  por Sinval Garcia na Oficina Cultural Amácio Mazzaropi, em que pode entender de que forma o fazer teatral e o
fazer fotográfico se interligam, conectando-se através da arte.

Integra o Fotoclube ABCClick (www.abcclick.com.br), no qual desenvolve atividades buscando o aprimoramento de seu olhar fotográfico,  através do contato com pessoas do ramo,  nos mais diferentes níveis.
Obteve em outubro de 2009 o Primeiro Lugar no 5º Concurso  Fotográfico do Sintrajufe-RS, em Porto Alegre,  e sua foto compõe o calendário 2010 da entidade, abordando o tema “Meio Ambiente”. (www.sintrajufe.org.br)

Ligia Helena de Almeida

Lígia Helena é atriz e arte-educadora formada pela Escola Livre de Teatro de Santo André, integra a Cia. Estrela D´Alva da Cooperativa Paulista de Teatro com os espetáculos “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, “Alberto Caeiro – Ele mesmo”, do heterônimo de Fernando Pessoa, “Hamlet S.A.” e “A Incrível Batalha pelo Tesouro de Laduê”.

Recentemente, ela escreveu:

“O teatro? Dele não tenho muita certeza, visito-o diariamente, o coitado anda meio bambo, às vezes mal anda sobre as duas pernas, algumas vezes vai para o CTI e recebe poucas visitas, alheias, que pouco sabem das causas e sintomas de sua doença, outras parece ganhar uma força estarrecedora e sai por aí cantando e dançando com muitos a lhe dizerem: “Nossa! Como você está bem! Como cresceu! Como se modificou! Incrível!”, mas logo o esquecem e ele fica a ver diários e fotografias do passado.
Quando o visito conto a ele minhas deselegâncias artísticas. Que ando perdida, topando em muros, ralando o cotovelo, ficando alguns dias com os cabelos despenteados, o sovaco peludo, as lentes dos óculos embaçadas por uma pura e inacreditável preguiça. E mesmo assim fico sempre o tempo todo extremamente ocupada, isto de dar aulas tem me tomado um tempo longo, mas ao menos, me faz girar a maçaneta e ir para a rua.
- Até logo querido. Passe bem.


Lígia Helena

Sueli Almeida
Contato: www.sueluzfoto.blogspot.com
www.flickr.com/photos/sueluzfotos
Tel.  4401.3938  /  8484.9240

 
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